quinta-feira, 23 de abril de 2015

Eu também sei que não devia...


Eu também sei, Marina, que a gente não devia. Mas de vez em quando eu até torço...

Eu também sei, Marina, que a gente não devia. Mas não olhar para fora, vez em quando, é alívio, fuga boa, Pasárgada particular (e alguma é compartilhada?).

Eu também sei, Marina, que a gente não devia. E vez em quando me lembro daquele sorriso que deixei em algum lugar, com um outro eu que ficou não sei bem onde... Perdido entre o que fui e o que queria ser...

Mas eu abro os olhos, Marina, com vontade de fechá-los. Sem vontade, se calhar. Ou se não calhar. A chuva também cai, não sou só eu quem saiu daquele pedestal gostoso que chamam de utopia, foi ?

Vai ver que é esse céu que teima em ficar cinza, com um ar de chumbo, a voz daquela lembrança dizendo plúmbeo, o eu-pequeno rindo do contorcionismo da língua para falar: plúmbeo.

Onde foi que perdemos a capacidade de rir das coisas simples, Marina ?

Será que foi imposição ou vontade de ser grande? Por que não contam a verdade para as crianças, Marina? Que esse negócio de crescer não é lá essas coisas ?

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Tá difícil, Marina. Tá difícil acostumar... Mas eu devia.

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